Por Lewis Brown. Tradução Pedro Saad.

“De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida para o bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva. Seria melhor viver sob uma corte de ladrões do que sob iluminados morais onipotentes. A crueldade do nobre ladrão pode, por vezes, arrefecer, e sua cupidez pode em algum momento ser saciada; mas aqueles que nos atormentam para o nosso próprio bem irão nos atormentar sem fim, com a aprovação da sua própria consciência.”- C. S. Lewis

Ryan Bourne escreveu no site do Centre of Policy Studies sobre o porquê, como diz Milton Friedman, de que as políticas devem ser julgadas por seus resultados, e não suas intenções. Ele referiu-se especificamente à perspectiva de um salário mínimo obrigatório e a exigência da igualdade forçada de pagamento, como exemplos de políticas bem-intencionadas que podem acabar prejudicando aqueles que se propõe a ajudar.

Este fenômeno não é incomum no debate público.

Hoje, a ONG Brake faz apelos a uma proibição de telefones ‘hand-free’ (vinculados ao aparelho de som) de veículos no Reino Unido. Eles apontam para o fato de que 98% dos motoristas não foram capazes de dividir o seu tempo em outras tarefas, sem que isso afete a sua capacidade de condução, aumentando a probabilidade de um acidente.

Eles começam a partir da intenção de aumentar a segurança rodoviária. Mas seria esse o resultado? Em uma época de crescente uso de smartphones e demandas de trabalho fora dos escritórios, as pessoas vão desligar seus celulares e as chamadas, ou será que eles, tendo sido convencidos a largar os agora supérfluos dispositivos, atenderão a isso?

A ONG Brake divulga compulsivamente que mais de 500.000 pessoas tinham pontos em sua carteira de motorista por usar um telefone ou se distrair de alguma outra forma. Ao invés de assumir que a tecnologia que nos permite diminuir os riscos associados à utilização de um telefone – tecnologia que só se tornará melhorará com o tempo – a sua resposta é torná-la ilegal, e, inadvertidamente, incentivar comportamentos ainda mais prejudiciais.

Muito tristemente, isso está longe de isolado no mundo dos benfeitores que sabem o que é melhor para nós.

Ativistas buscam proibir cigarros eletrônicos porque eles podem fazer com que o fumo se torne novamente aceitável – apesar dos benefícios que seu uso pode ter para a saúde pública. A União Europeia deseja proibir os maços de 10 cigarros, porque os jovens tendem a comprá-los – independentemente da evidência com base em dados dos Estados nacioanis que nos dizem as pessoas tendem a fumar mais quando é forçado a comprar embalagens de 20 cigarros. Os aumentos na tributação do álcool na Inglaterra afastaram as pessoas dos pubs, mas as aproximaram de supermercados, visto que eles que podem se dar ao luxo de vender bebidas a um preço mais baixo. Agora discute-se a adoção de um preço mínimo, apesar de poucas evidências que teria impacto problema ou bebedores habituais.

Além da esfera da saúde pública, há aqueles que defendem apaixonadamente um leviatã nos meios de comunicação, a BBC, financiado por um tributo obrigatório para melhor ‘educar, informar e entreter” as pessoas. Essas pessoas são cegas ao fato de que o modelo é antiquado, em uma época do florescimento de diversas alternativas do mundo digital. Suas intenções são honestas, seu resultado é processar mais de 3.000 pessoas por semana – cerca de um em cada dez de todos os processos no Reino Unido – pela recusa do pagamento de mais de £ 145,50 por ano.

Ou feministas que, se outrora estabeleceram o mantra ‘queime seu sutiã’, hoje passaram a exigir que as mulheres, em vez disso, coloquem o sutiã. Um dogma outrora defendido, da libertação e direito da mulher de escolher o seu próprio destino, agora cede lugar ao puritanismo da proibição de propagandas e revistas masculinas. A intenção é proteger as mulheres exploradas; o resultado, por sua vez, é o cerceamento de como uma mulher deve escolher usar o seu corpo.

Em The Liberal Mind, o grande professor Kenneth Minogue escreveu que os esquerdistas modernos são como São Jorge matando dragões. Eles começam com campanhas honrosas que precisam ser vencidas. Após sairem vitoriosos, eles procuram dragões maiores para ser mortos. Eventualmente, com todos os grandes animais derrotados, eles procuram mais batalhas, uma vez que são incapazes de viver sem seus dragões. ONGs, muitas vezes trabalham assim. Tendo vitórias obtidas em questões relacionadas aos celulares nos carros, ao fumo em locais públicos, e ao uso de bebidas alcoólicas, eles continuam a pressionar por políticas mais destinadas a restringir comportamentos e escolhas; suas intenções podem ser boas, mas seus resultados são muitas vezes catastróficos. Em outras áreas, eles podem ser incapazes de ver que suas propostas são antiquadas ou até mesmo vir a argumentar contra seus próprios princípios.

Se é assim que os “benfeitores” procuramos nos proteger, devemos justamente estar atentos a quais serão os próximos dragões que eles vão apontar suas lanças.

Esse artigo foi originalmente publicado no site do Centre for Policy Studies. Mais informações sobre essa organização pode ser encontrada no site http://www.cps.org.uk.

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