Por Eduardo Teles

Em momentos como o que estamos vivendo, no qual as incertezas no campo econômico pairam aos montes, é que mais se escutam discussões relacionadas à referida ciência. Fato é que o país precisa de mudanças e, se existe um momento mais conveniente para que elas aconteçam, é quando estamos numa crise.

Os sintomas estão aí: inflação anualizada acima de 9%, desemprego acima de 8%, câmbio pressionado para forte desvalorização, contas públicas desajustadas, e por aí vai. Entretanto, descobrir a causa disso tudo é que se mostra uma tarefa complexa.

Um ponto em especial, que pouco é abordado em nosso país – principalmente no campo político – mas que tem papel fundamental no formato econômico e social ao longo dos anos: a produtividade. Como disse Paul Krugman, “a produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”.

Países vivem momentos tão distintos no que se refere a níveis de renda, que o desafio é tentar entender o porquê chegaram aos respectivos patamares. O 8º princípio de economia elucida que “o padrão de vida de um país depende de sua capacidade de produzir bens e serviços”, enfim, a sua produtividade.

Gráfico 1. Evolução do produto por trabalhador (y) – US$ PPP (Brasil, 1950-2009)


O gráfico 1 apresenta o comportamento do produto per capita brasileiro entre 1950 e 2009 – em níveis relativos ao ano 1950 – onde se percebe claramente elevadas taxas de crescimento a partir dos anos 1950, tendo o ápice entre 1968 e 1973, no “milagre econômico”, sofrendo queda acentuada na década de 1980. Houve novo crescimento no início da década de 1990, e novamente em meados da década de 2000, contudo, não conseguindo recuperar o mesmo patamar do maior nível há cerca de 30 anos.

A teoria do crescimento econômico estabelece que a renda per capita depende da produtividade do trabalho multiplicada pela taxa de participação da população em idade ativa (PIA) na força de trabalho:


ou seja, um país para alcançar elevações na sua renda per capta precisa aumentar a sua produtividade ou o número de pessoas que façam parte da força de trabalho.

Nesse sentido, remetendo ao nosso passado recente, onde o país apresentava taxas de desemprego invejáveis, contudo, o crescimento que experimentamos não se mostrou sustentável, e por fim estamos vivendo, e ao que parece por muito tempo, uma grave crise econômica, com desdobramentos sociais preocupantes.

Continuando na análise da citada teoria, empiricamente percebe-se as principais causas para o baixo crescimento de longo prazo, principalmente ao se comparar com economias tradicionais como a norte americana, ou os casos de sucesso mais recentes, Koréia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Taiwan.

A tabela a seguir apresenta o comportamento do Brasil e dos Estados Unidos ao longo de suas histórias, ou seja, nos últimos 500 anos, onde percebe-se claramente o ponto de descolamento entre eles, na segunda revolução industrial, no século XIX e na primeira metade do século XX.


Vários motivos são apresentados para este cenário, desde o modelo de colonização, geografia, qualidade das instituições e nível de comércio internacional, mas o fato é que o nosso vizinho continental do norte aproveitou muito bem o cenário de inovações tecnológicas, e com isso colocou-se como a maior economia mundial, posto anteriormente dominado pela Inglaterra.

Enquanto o Brasil independente, mas sob o regime monárquico de um imperador português, seguia incentivos diversos do modelo republicano norte americano, este último conseguiu criar um excelente ambiente de negócios, vendo emergir empreendedores e engenheiros, estimulando o acúmulo dos fatores de produção (capital físico e humano), bem como elevados níveis de Produtividade Total dos Fatores (PTF).

Houve um hiato de quase 100 anos entre a industrialização brasileira e americana, além do modelo adotado, no nosso caso, focado em substituição de importações, e já para o segundo, mais voltado para o comércio internacional.

Gostaria de salientar a importância do componente PTF, resultante essencialmente dos fatores tecnologia e eficiência da alocação de recursos. O modelo de Solow apresenta a seguinte estrutura:


onde y é o produto per capita, k é o capital físico por trabalhador, h é o capital humano por trabalhador e A é a PTF. O parâmetro α é a elasticidade do produto em relação ao capital físico. O capital humano será construído pela seguinte equação:

em que s é a escolaridade média da mão de obra, tentando capturar o retorno da escolaridade no mercado de trabalho.
O estoque de capital físico é construído a partir do método de investimento perpétuo, pela seguinte expressão:


em que K é o estoque de capital agregado, I é o investimento e δ a taxa de depreciação do capital.

A contribuição de cada fonte para a formação do produto per capita então seria:

onde o lado esquerdo representa o crescimento médio por trabalhador entre dois anos, T é a diferença de anos, e o lado direito decompõe o crescimento da produtividade do trabalho em três componentes: a PTF (A), o capital físico (k) e o capital humano (h) .


Observando a tabela 2, dentre as várias inferências possíveis, vê-se o quanto a PTF (A) foi importante para o maior crescimento registrado, no período do chamado “milagre econômico”, e já na chamada “década perdida”, esse índice teve um comportamento negativo. O que suscita a correlação entre a participação da tecnologia e da eficiência nas alocações dos recursos, como fundamental para o crescimento sustado no longo prazo.

O papel da tecnologia para uma maior produtividade é muito claro, já o segundo fator, a eficiência nas alocações, merece maiores apresentações.

Basicamente, todos os países que experimentaram elevadas taxas de crescimento, passaram por mudanças estruturais nos seus setores produtivos, ou seja, deslocaram recursos, sejam capital físico ou humano, de um setor essencialmente menos produtivo, a agricultura, para os mais produtivos, indústria e serviços. Pois foi justamente o que aconteceu com o Brasil a partir dos anos 1950 até o início dos anos 1980, com queda contínua na participação do setor agrícola, saindo de pouco mais de 62% para 19%; já o setor industrial se mostrou mais linear, crescendo de 17% para 19%; e por fim, o setor de serviços foi o que apresentou maior crescimento, saindo de 20% para 62%.
A questão é que a partir de certo amadurecimento da economia, com o assentamento aproximado aos nossos índices atuais, o crescimento per capita passa a ser dependente da PTF. Aí surge a questão sobre quais fatores podem causar elevação da PTF.

Como já disse o economista Gustavo Franco, “para um problema complexo, sempre existe uma resposta simples e ERRADA”. Portanto não se espera encontrar aqui uma panaceia, mas de fato alguns pontos são muito pertinentes e reveladores quando comparados num grupo de países.

A tabela 3 apresenta diversas classificações comparativas, para questões intimamente ligadas ao empreendedorismo privado, onde pode-se perceber que o Brasil encontra-se mal posicionado, quase sempre no último terço do universo total de 183 países medido pelo Banco Mundial.


O chamado “custo Brasil” já é bem conhecido pelos brasileiros, na forma de uma excessiva burocracia administrativa, complexo e oneroso modelo tributário, elevada taxa de juros, que encarece o crédito, que por sua vez também quase sempre é de difícil acesso.

Junto aos problemas comentados que afetam a atividade econômica do país, soma-se a baixa qualidade da infraestrutura, e da educação, o que também diminuem a eficiência marginal do capital, principalmente para setores que sofrem concorrência externa, de países com ambientes de negócios, tecnologia e capital humano mais desenvolvidos.

Os momentos de maior crescimento econômico foram precedidos de reformas políticas positivas, como no PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo), em meados dos anos 1960, com a criação de instituições de controle do mercado financeiro (CMN, BACEN…) e de poupança e investimento de longo prazo (SFH, BNH…), e o conjunto de reformas iniciadas no início da década de 1990, com a abertura da economia e o fim das “reservas de mercado”; o Plano Real; a criação de leis como a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), a Lei das SAs, dentre outras, que resultaram em controle da inflação, maior equilíbrio fiscal interno e externo, de acesso ao crédito, de robustez ao mercado de capitais, entre outros fatores positivos que ao seu tempo, representaram verdadeiras revoluções ao status quo.

A questão chave é posicionar o país para a convergência ao crescimento econômico, o que tem se mostrado bastante difícil ao longo da história, dada a dificuldade de se adequar a agenda política com medidas essencialmente de longo prazo. A reforma tributária já está virando lenda, promessa de vários candidatos que quando eleitos praticamente em nada avançam nesse tocante. Medidas de abertura da economia que gerem competição, e com isso efeitos shumpeterianos, de “destruição criativa”, que pode em muito elevar a PTF, com a saída do mercado de empresas ineficientes, substituídas por outras muito mais produtivas, aumentando a eficiência agregada da alocação de recursos.

Seja como for, não parece que no curto prazo veremos grandes mudanças na rota do país, infelizmente, mas como já foi dito, nos momentos de crise é que muitas vezes se manifestam as grandes mudanças necessárias. Pois que venham, e coloquem o país rumo ao crescimento econômico sustentável, elevando o padrão de vida da população, para quem sabe em algumas décadas, finalmente vir a alcançar o seleto e privilegiado grupo de países desenvolvidos.

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