*Por Márcio Becker Gois

 A conclusão a que cheguei sobre os projetos de progressão continuada (aprovação automática), onde quer que tenha sido implantado no Brasil, é que transformaram a educação pública num depósito de crianças puramente com a função de não deixá-las nas ruas. Essa foi a forma encontrada para melhorar as estatísticas, tornando-as mais inclusivas. Entretanto, os alunos vão sendo aprovados ano após ano mesmo sem aprender. Não existe nem um mínimo de projeto pedagógico sendo aplicado.

O formato foi implantado pela primeira vez na década de 90 pelo governo socialista do presidente François Mitterrand, na França. Nossos governantes, de base social democrata, adotaram a ideia, mas sem dispor de recursos para garantir que todo o apoio necessário fosse implantado. Contudo, cada vez mais e mais administradores vêm abandonando o sistema. Em 2013, Fernando Haddad fez alterações importantes na cidade de São Paulo, permitindo que haja reprovação em algumas séries, e já anunciou que deve ser extinto. O sistema era utilizado desde o mandato de Luiza Erundina, do mesmo partido do atual prefeito, que no fim da década de 80 nomeou ninguém mais do que o célebre Paulo Freire para secretário da Educação do município.

Durante as duas décadas em que a progressão continuada foi regra nas escolas, não se pensou de forma alguma em se implantar um sistema meritocrático, que premiasse o bom desempenho. Houve sempre uma forte campanha ideológica contra qualquer menção da palavra mérito no sistema de ensino.

Meu ponto é avaliar até que ponto a pedagogia no Brasil estaria contaminada de uma premissa de que algo seria bom e justo, sem de fato avaliar processos e resultados.Duas questões apresentadas pelos professores, que são a indisciplina em sala e o avanço sem saber conteúdo, já estão se tornando crônicos na educação e não têm sido apresentadas alternativas para sanar esse problema.

Até que ponto os professores estarão subjugados a teorias pedagógicas e por quantos anos vamos ter que aguardar os resultados tão prometidos? O resultado explícito que temos é que foram criados resultados quantitativos, mas qualitativamente instituíram a tábula rasa na educação pública. Fica bem claro que existe um conflito entre os professores e os ideólogos de educação.Os primeiros não conseguem trabalhar com a realidade de uma total falta de disciplina nas classes e com a ineficácia de ter que empurrar alunos sem condições de acompanhar os conteúdos.

O objetivo dos segundos é que a criança fique na escola, mesmo que isso custe uma queda de qualidade para todos. Ouço reclamações constantes tanto de professores quanto de alunos que a indisciplina é tanta que já há muito não existem condições de dar aulas.

O fato é que a progressão continuada não vem constituída de um projeto pedagógico, mas sim ideológico. Mas além de ser completamente imoral manter uma pessoa num determinado nível sem que ela tenha condições de aprender, esta situação ainda acaba atrapalhando os demais, que por fim se desmotivam de qualquer ambição profissional ou acadêmica. São muitos anos vivenciando a mesma situação num círculo vicioso que só colabora pra que se produzam estudantes que não terão acesso a conhecimentos necessários para exercer uma atividade profissional que exija qualificação ou para participar de seleções para a universidade ou cargos públicos.

É importante ressaltar que não se pode responsabilizar os professores nesta questão, os quais são só uma peça dentro da engrenagem responsável pelo mau funcionamento de toda uma estrutura.

Educação é uma questão de objetivo. Cursinhos têm como objetivo passar no vestibular, e muitas vezes são alvos dos pedagogos, que veem nisso um conceito pouco nobre. Escolas públicas, por sua vez, têm como objetivo manter crianças fora das ruas e sob cuidados enquanto os pais trabalham, e dar-lhes um mínimo de socialização e aprendizado técnico (leitura e matemática básica). É sob esse ponto de vista que existe a progressão continuada.

O pensamento dilema de um pedagogo no Brasil sempre foi:”O que faço com um garoto desses? Se reprovo aí ele sai da escola de vez, a mãe dele já veio aqui dizer que trabalha 12 horas por dia e não pode garantir que ele vá bem na escola. Se eu o reprovo, sai da escola e vira marginal”

O pior é saber que muitos justificam essa desvirtuação do objetivo da escola, negligenciando que a grande maioria acaba sendo prejudicada em todos os sentidos. O foco integral é naquele aluno que não está acompanhando, mas não necessariamente dando subsídios para que ele consiga acompanhar, mas sim para que não largue a escola.

Mas quantos focaram na desmotivação daqueles alunos que vão empenhados à escola, têm um objetivo de vida e são obrigados a conviver tanto com colegas que não têm interesse quanto nenhuma disciplina, minando todo o processo desses primeiros e acabando com qualquer sonho de progredir nos estudos?

Como já mencionei, uma das principais justificativas para se manter a progressão continuada é a ojeriza que alguns pedagogos têm à meritocracia. Vê-se um problema em criar classes distintas, por exemplo, mas não se crê ser imoral e injusto que todos tenham que carregar o problema de alguns dentro de uma sala de aula, além de completamente aceitável que sejam prejudicados pelo desempenho insatisfatório provocado por seu comportamento.

Nesse interesse em dar condições ao aluno com mais dificuldades, assume-se uma postura paternalista e extremamente negativa em minha opinião.

Na minha vivência, uma das razões mais fortes para se inserir na criminalidade é não saber trabalhar com frustrações. Em que contribuiria, então, a um indivíduo poupá-lo de encarar seus fracassos, não desenvolver um processo em que tenha que superar obstáculos, não ser premiado por seus progressos, deixando-o na condição de indiferença ao mau desempenho dentro do processo escolar?

Qualquer bom profissional se sentiria na obrigação de dar suporte ao seu aluno nesses momentos também. Ajudar a desenvolver uma autocrítica e estimular o desejo de refazer seu processo de uma forma positiva e proveitosa. As pessoas não são iguais na forma de aprender, nisso concordamos. Mas essa necessidade de deixá-los todos juntos contribui em quê para o desenvolvimento de suas individualidades? Os fatos nos mostram que só faz piorar de um modo geral.

Na cidade de São Paulo, o que acontece hoje é um misto do método seriado com o de ciclos. Não fica claro para os professores o que deve ser feito nem como avaliar. A ideia de ciclos, com a progressão continuada, sempre foi apresentada como ideal, mas a escola não consegue implantá-la adequadamente, porque a prefeitura falha em oferecer as condições para que haja um acompanhamento dos alunos com diferentes níveis de aprendizagem, ou seja, faltam professores para promover as recuperações como deveriam ser, falta material, falta espaço.

A ideia de voltar para o método seriado, com as reprovações, proposta ainda que timidamente pelo prefeito, pode ser a saída metodológica necessária, pois coloca tudo mais às claras para todos os envolvidos no ambiente escolar. A progressão continuada prescinde dessa clareza de papéis na escola. A maioria dos profissionais com quem conversei concorda que a situação a que se chegou está impraticável.

Segundo o depoimento de um professor: “Um belo dia, no qual eu quis testar a reação dos alunos, disse que a progressão continuada seria extinta no ano seguinte. Eles ficaram apavorados e disseram: Meu deus, agora vou precisar estudar!”.

Nota:¹http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/07/1318190-aluno-de-sp-podera-repetir-em-5-das-9-series.shtml

*Márcio Becker Gois é estudante de Filosofia da Universidade de São Paulo, fundador da União Democrática Acadêmica e do Instituto Soluções.
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