Por Márcio Becker

Nas últimas semanas, mais uma vez o Rio de Janeiro foi notícia devido a uma série de arrastões em suas praias.

Imediatamente, inúmeras pessoas apareceram publicamente justificando esses crimes. Segundo elas, aqueles que não têm possuem o direito de expropriar aqueles que têm. De fato, nos últimos anos, a criminalidade como um todo vem aumentando e o Estado não cumpre nem seu papel de combatê-la, nem de evitá-la.

Apesar de toda publicidade governamental em divulgar que a pobreza diminuiu e que mais milhões têm acesso ao consumo, é ainda muito comum ouvir o discurso lugar-comum de que a origem da criminalidade é a desigualdade social. Com efeito, há muita gente na política que pensa dessa forma.

É inegável que a desigualdade econômica é um entre vários correlatos, mas não podemos tomá-la como fator único, numa relação causal inequívoca.

Efetivamente, há vários locais em que a desigualdade é muito grande, enquanto a criminalidade é baixíssima.

Aqueles que constroem esse tipo de lógica, justificando atitudes criminosas, com certeza nunca tomaram um pouco de tempo para analisar fatos e o fazem puramente baseados em suas crenças.

Arrisco um palpite de que estamos passando por uma grave crise de valores. Um deles é o respeito à propriedade alheia, incluindo aí a vida de outras pessoas.

Nossos últimos governos por certo têm investido em ampliar o acesso ao consumo. A ideia de emancipação de um cidadão é a de que ele possa realizar seu desejo de adquirir a mercadoria fetichizada, seja um celular de mais de 3 salários mínimos ou o par de tênis anunciado pelo craque de futebol. Esse seria o tom da felicidade.

Entretanto, nessa filosofia, ignoram o quanto alguém precisa estudar, se dedicar, trabalhar – além do tempo investido nessa conquista – para chegar à condição de consumir os bens tão cobiçados.

Realmente, a reivindicação dos sem-celular, dos sem-tênis, não é por melhores escolas, por um posto de trabalho ou por melhores oportunidades, mas explicitamente pelo produto que o outro tem, mas eles não.

Este têm sido um dos piores legados que governos sucessivos de esquerda têm impregnado em nossa sociedade: A inveja e o sectarismo.

A inveja, infelizmente, não vem combinada com a ambição, o desejo de crescer, mas apenas um ressentido senso de injustiça. Criam-se cidadãos que imaginam direitos fictícios, os quais os autorizam a cometer crimes para se fazer justiça, que seria atingida ao expropriar aquele que tem a mercadoria fetichizada, pelas mãos daqueles que não tem.

O partido que governa nosso país tem feito esse doutrinamento sistematicamente, dividindo nossa sociedade entre aqueles que não têm contra aqueles que têm.

O conceito de cidadania pelo consumo tem sido reificado a um ponto que há pessoas que matam para conseguir obter seus objetos preciosos e ainda há os que endossam essa atitude sem nenhuma reflexão.

O país não evoluiu. Nosso sistema educacional é lastimável, as pessoas não conseguem se qualificar para o mercado de trabalho ou para empreenderem. Criaram-se cidadãos despreparados pessoal ou intelectualmente para confrontar a realidade, dependentes de uma febre consumista que já se foi e sem estratégias para ultrapassar uma recessão que promete ser duradoura.

Nosso governo, que tanto se gaba de ter acabado com a pobreza, esqueceu-se da pobreza intelectual, da pobreza de valores, da pobreza de informação.

No dia em que os sem-tênis, sem-celular, estiverem fazendo “arrastão” na frente de escolas e das sedes do governo, por uma educação de qualidade, por professores dando aulas de verdade, estes terão todo meu apoio a seu movimento. Quando o status for definido pela quantidade de livros lidos e não pelo celular da moda, talvez a criminalidade decresça, pois haverá mais gente nas bibliotecas do que roubando nas praias.

Quanto às pessoas que fazem apologia ao crime publicamente, por conta de mercadorias fetichizadas, a sugestão é muito simples: Deveriam responder juridicamente pelo crime que cometem.

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